
Imagem gerada por IA.
O aviso não dizia “bloqueado”.
Dizia apenas: conteúdo indisponível nesta região.
Era um texto antigo, salvo em favoritos há anos. Não havia nada ilegal ali — apenas uma análise técnica sobre protocolos de rede. Ainda assim, não carregava mais. Nenhuma justificativa. Nenhum responsável visível.
A internet, que sempre funcionara como um espaço contínuo, começava a se comportar como um mapa político: zonas, exceções, fronteiras invisíveis. Não era censura clássica. Era algo mais sutil — governança embutida na infraestrutura.
Não houve um anúncio global. Não houve um tratado histórico. Apenas uma sucessão de decisões técnicas, acordos multilaterais, leis de proteção, discursos sobre soberania e segurança.
Quando alguém percebe que a rede mudou, ela já mudou há bastante tempo.
E talvez o mais inquietante seja isso:
ninguém precisou concordar para que acontecesse.
🧭 BRICS, Soberania Digital e a Ideia de Uma “Internet Própria”
Nos últimos anos, o conceito de soberania digital deixou de ser apenas retórico e passou a orientar decisões concretas. No contexto do BRICS, isso se manifesta em debates sobre infraestrutura, dados, inteligência artificial e governança da internet.

Uma decisão técnica, aprovada longe do debate público, começa a redesenhar a própria forma da internet. Quando o BRICS autorizou um estudo para criar cabos submarinos próprios, o vocabulário foi cuidadosamente escolhido: eficiência, segurança, soberania. Mas infraestrutura nunca é neutra. Ao falar em ‘soberania na troca de dados’, o bloco indica que a conectividade global passa a obedecer a fronteiras políticas — ainda que invisíveis. Não é censura declarada, nem ruptura imediata. É algo mais discreto: quem controla a arquitetura, controla as possibilidades. E, quando a rede passa a ter donos, a liberdade deixa de ser um princípio e passa a ser uma permissão. 📸 Oleg Elkov / Shutterstock
Análises como Welcome to Meltnet descrevem propostas de arquiteturas alternativas, baseadas em redes federadas, controle regional de dados e maior autonomia técnica em relação à infraestrutura historicamente concentrada nos Estados Unidos e na Europa. O discurso institucional enfatiza protagonismo do Sul Global, cooperação tecnológica e redução de dependências estratégicas.
Do ponto de vista acadêmico, estudos como Digital Sovereignty in the BRICS Countries (Cambridge) indicam que soberania digital, no bloco, não significa necessariamente isolamento completo, mas capacidade estatal de intervir, regular e, em último caso, interromper fluxos digitais considerados estratégicos.
Pesquisas sobre soberania de dados e transferências internacionais mostram que dados passaram a ser tratados como ativos nacionais — comparáveis a recursos naturais ou infraestrutura crítica. Essa lógica sustenta políticas de localização de dados, exigências de identificação e novas camadas regulatórias sobre plataformas e provedores.
O ponto central não é se o BRICS está “criando uma nova internet”, mas como a arquitetura global está sendo progressivamente fragmentada por projetos nacionais e regionais. O resultado não é um corte abrupto, e sim uma rede cada vez menos universal.
Esse movimento não ocorre no vácuo. Ele dialoga com tendências semelhantes em outras regiões — inclusive em países que, historicamente, defenderam a ideia de uma internet aberta.
🧩 Governança Global, Fragmentação e o Fim do “Mal Menor”
Durante muito tempo, o debate sobre controle digital foi reduzido a uma escolha binária: ou o modelo chinês, ou o modelo ocidental. Esse enquadramento oferecia um conforto enganoso — a sensação de que sempre existiria um “mal menor”.

A internet não está sendo censurada de uma vez. Está sendo redesenhada. Sob o argumento de regulação, segurança e soberania digital, governos ao redor do mundo passam a decidir onde os dados podem circular, quem pode operar redes e quais regras valem em cada território. O resultado não é um bloqueio explícito, mas algo mais profundo: a fragmentação silenciosa da própria ideia de internet. Para alguns, é proteção contra o poder das big techs; para outros, o início de uma rede onde liberdade depende de autorização. A pergunta não é se haverá regras — mas quem escreve o código que define os limites. 📸 Getty Images
Relatórios como An Uncertain Future for the Global Internet, da Freedom House, mostram que esse conforto está se dissipando. Democracias liberais também ampliaram mecanismos de vigilância, exigências de identificação, controle sobre plataformas e intervenções em nome da segurança nacional e da proteção de dados.

