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Imagem gerada por IA.

O céu daquela manhã parecia comum, mas uma senhora na varanda do oitavo andar observava os riscos brancos que se estendiam, lentos, até desaparecerem no horizonte. “Olhe bem”, dizia ao neto de doze anos, “não são nuvens. Eles estão jogando alguma coisa lá em cima.” O menino, curioso, perguntava: “Mas quem, vovó? E por quê?” Ela apenas sorria, um sorriso que misturava medo e certeza, como se estivesse diante de um segredo que nunca seria revelado.

A cena poderia acontecer em qualquer cidade do mundo. Talvez em São Paulo, no interior do Texas ou em Berlim. Pouco importa a geografia: o que importa é o olhar. A desconfiança atravessa gerações, conectando explicações simples — trilhas de vapor no céu — a narrativas complexas de manipulação climática global. É nesse entrelaçar de cotidiano e mistério que nasce o mito dos “chemtrails”, onde o banal se transforma em símbolo de um poder invisível.

🌫 Chemtrails, Geoengenharia e Ameaças a Cientistas

Em setembro de 2025, a matéria publicada pelo portal Axios trouxe à tona um fato inquietante: o cientista climático David Keith, referência mundial em geoengenharia solar, relatou ter recebido ameaças graves por parte de indivíduos que acreditam na teoria dos “chemtrails”. Para muitos desses grupos, as linhas brancas que aviões deixam no céu não são apenas trilhas de condensação, mas indícios de um programa secreto de pulverização química, supostamente para controle populacional ou climático.

David Keith, professor de Ciências Geofísicas da Universidade de Chicago (EUA), relatou ter sido alvo de ameaças de indivíduos que defendem a teoria dos “chemtrails”. (Foto: Mustafa Hussain/The New York Times)

Keith afirmou que, em pelo menos duas ocasiões, foi obrigado a acionar a polícia. Ainda assim, destacou que, em encontros presenciais, a maioria dos adeptos da teoria se mostrou educada, curiosa, até cordial. Esse contraste — entre a violência das ameaças virtuais e a civilidade do diálogo face a face — revela algo fundamental: não estamos diante apenas de ignorância, mas de uma ansiedade coletiva.

O medo dos “chemtrails” não surge no vácuo. Ele se apoia em preocupações legítimas com poluição atmosférica, mudanças climáticas e falta de transparência das instituições. Vivemos em um mundo saturado por alertas sobre catástrofes ambientais, relatórios técnicos incompreensíveis para o cidadão comum e uma crescente desconfiança em relação à ciência e à política. Nesse caldo, trilhas de vapor no céu se tornam símbolos de forças ocultas.

Ao se popularizar em vídeos, fóruns e redes sociais, essa narrativa encontrou terreno fértil para se enraizar. E mais: ela revela como as linhas entre fato científico e mito cultural podem se dissolver com facilidade. A questão não é apenas se os “chemtrails” existem — e a ciência já mostrou que não existem —, mas por que tantas pessoas desejam acreditar que existem.

💰 O Papel dos Bilionários na Pesquisa Climática

Pouco se comenta em público, mas gigantes do capital têm direcionado recursos significativos para pesquisas de geoengenharia solar. A proposta é, em teoria, simples: estudar maneiras de refletir parte da luz do Sol de volta ao espaço, reduzindo temporariamente o aquecimento global. Um dos projetos mais conhecidos nesse campo é o SCoPEx (Stratospheric Controlled Perturbation Experiment), planejado por pesquisadores de Harvard. Sua intenção não era “escurecer o céu”, mas realizar experimentos controlados para entender melhor os efeitos da injeção de partículas na estratosfera.

Cientistas de Harvard apresentaram uma proposta experimental para investigar o uso de aerossóis estratosféricos como forma de mitigar os efeitos do aquecimento global. O objetivo é avaliar, de maneira controlada, a viabilidade de técnicas de bloqueio parcial da luz solar por meio da geoengenharia. (Crédito: Reprodução/Divulgação)

O envolvimento de investidores privados nesse tipo de pesquisa não passou despercebido. Reportagens revelaram que figuras bilionárias participaram de reuniões técnicas, acompanharam demonstrações de protótipos e dialogaram com cientistas de instituições de prestígio. A presença desses “patrocinadores invisíveis” alimenta tanto o entusiasmo quanto a suspeita. Se, por um lado, o financiamento permite explorar uma fronteira científica urgente, por outro, reforça a ideia de que decisões de impacto planetário podem estar nas mãos de poucos.

O risco é claro: quando apoio financeiro se mistura a projetos de ciência sensível, o imaginário público tende a transformar filantropia em conspiração. É fácil passar de “apoio à pesquisa” para “eles estão manipulando o clima em segredo”. E essa narrativa, multiplicada por vídeos virais e manchetes alarmistas, é combustível perfeito para alimentar medos já existentes.

Vale destacar: até o momento, não existe qualquer projeto de geoengenharia solar em escala global. As experiências planejadas são mínimas, sujeitas a rigorosos protocolos éticos e frequentemente suspensas por oposição de comunidades locais. A distância entre a realidade científica e o mito conspiratório é enorme. Mas é justamente nesse espaço vazio, entre o que se sabe e o que se teme, que histórias de controle climático encontram força para florescer.

📚 Filosofia, Foucault e Ficção Científica em Clarke

Para compreender o fascínio — e o medo — que a geoengenharia desperta, é útil recorrer não apenas à ciência, mas também à filosofia e à literatura. Michel Foucault, ao desenvolver os conceitos de biopoder e governamentalidade, mostrou como o poder moderno não se exerce apenas pela repressão, mas também pela gestão da vida. Estatísticas, vigilância, saúde pública e controle ambiental se tornam dispositivos que organizam populações de forma quase invisível. O biopoder não é apenas força: é racionalidade técnica transformada em norma.

O filósofo francês Michel Foucault, ao formular os conceitos de biopoder e governamentalidade, destacou que o poder moderno atua não apenas pela repressão, mas também pela administração e gestão da vida. (Reprodução)

Agora, imagine expandir essa lógica à escala planetária. O clima, vital para a sobrevivência humana, passa a ser visto como objeto de gestão técnica. É natural que, nesse cenário, teorias como os “chemtrails” ressoem tão intensamente. Elas dramatizam o temor de que alguém, em algum lugar, detenha o poder de regular a própria atmosfera.

Arthur C. Clarke, em O Fim da Infância (1953), antecipa esse imaginário ao narrar a chegada dos “Senhores Supremos”, uma civilização avançada que intervém no destino humano. Sem revelar seus métodos, controlam o rumo da Terra, orientando a humanidade em direção a uma transformação radical. O romance sugere tanto maravilhamento quanto perda de autonomia: o futuro não pertence mais aos homens, mas a forças invisíveis.

A conexão entre Foucault e Clarke é reveladora. Enquanto o filósofo mostra como instituições humanas moldam condutas por meio de discursos e práticas, o escritor dramatiza a entrega da humanidade a poderes externos. Ambos, cada um à sua maneira, ajudam a entender por que a geoengenharia e os “chemtrails” não são apenas temas técnicos, mas também mitos culturais. O medo do poder invisível, afinal, é tão antigo quanto a própria modernidade.

🎬 Pílula Cultural

A série Years and Years acompanha a trajetória da família Lyons entre 2019 e 2034, retratando diferentes gerações diante de transformações profundas no mundo. A narrativa aborda, com sensibilidade, como eventos políticos e sociais globais impactam a vida cotidiana de pessoas comuns. (Foto: Divulgação/HBO)

Watchmen, lançado como HQ em 1986 por Alan Moore, Dave Gibbons e John Higgins, e adaptado ao cinema em 2009 e à TV em 2019, subverte o mito do super-herói. Em vez de salvadores, temos vigilantes ambíguos, manipulados ou manipuladores, cujas escolhas determinam o destino da humanidade. O clímax da narrativa envolve um projeto secreto: uma catástrofe fabricada para unir o mundo contra uma ameaça comum. Aqui, a manipulação em larga escala, sustentada pelo segredo, é apresentada como estratégia de “salvação”. A metáfora é clara: às vezes, o bem maior é invocado para justificar meios obscuros.

Years and Years, minissérie britânica criada por Russell T. Davies em 2019, mergulha na distopia do futuro próximo. Ao acompanhar a vida da família Lyon por quinze anos, a série condensa crises geopolíticas, colapso climático, transumanismo e desinformação. O resultado é perturbador: o futuro surge como uma sucessão de choques, cada vez mais intensos, que naturalizam o absurdo e fragilizam a confiança nas instituições.

Ambas as obras ecoam o imaginário conspiratório contemporâneo. Se Watchmen dramatiza elites invisíveis moldando o destino coletivo, Years and Years mostra como a soma de catástrofes gera medo e vulnerabilidade. Juntas, revelam a força cultural de narrativas que expõem — ou exploram — o temor de que forças incontroláveis estejam à frente da humanidade.

No debate sobre geoengenharia e chemtrails, essas obras funcionam como espelhos. Não porque descrevem a realidade, mas porque traduzem os medos que alimentam teorias conspiratórias: medo da manipulação, da perda de autonomia, do futuro incerto.

O céu que observamos diariamente carrega mais do que vapor d’água condensado: carrega histórias, medos e esperanças. Os riscos brancos que se desmancham no horizonte lembram que a fronteira entre ciência e mito é tênue, e que cada trilha pode ser interpretada como sinal de progresso ou de manipulação.

A discussão sobre geoengenharia solar não é apenas técnica; é também cultural, filosófica e ética. Ela toca na essência do que significa governar o futuro: quem decide, com base em que, e para benefício de quem? As teorias conspiratórias, por mais distorcidas que sejam, funcionam como termômetro das ansiedades sociais diante de um mundo em rápida transformação.

Entre o biopoder descrito por Foucault, a ficção visionária de Clarke e as metáforas de Watchmen e Years and Years, emerge uma pergunta inevitável: estamos preparados para lidar, com lucidez e responsabilidade, com a possibilidade de regular o clima da Terra? Ou preferimos acreditar que o céu esconde segredos inconfessáveis?

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