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Imagem gerada por IA.

Naquela madrugada de Natal, enquanto sinos ainda ecoavam em aldeias esquecidas do mapa, o céu africano foi cortado por um som que não vinha dos anjos. Não era oração, nem canto litúrgico. Era metal, fogo e cálculo. Em algum ponto da Nigéria, homens que jamais apareceriam nos jornais dormiam pela última vez sem saber que seus nomes não seriam lembrados — apenas seus atos.

O mundo acordou com manchetes genéricas. “Operação cirúrgica”. “Alvos terroristas”. “Estabilidade regional”. Mas ninguém escreveu sobre a igreja de barro reconstruída três vezes. Ninguém falou da catequista que escondeu o crucifixo no bolso antes de fugir. Ninguém conectou os pontos.

No mesmo dia, do outro lado do mapa, portas foram arrombadas na Turquia. Prisões silenciosas. Planos interrompidos. Outra vez, as peças se moveram.

E como sempre, o que parecia notícia era só a superfície. O resto… ficou nas entrelinhas.

💥 O Ataque que Não Foi só Militar

O ataque americano às bases islâmicas na Nigéria, realizado no dia de Natal, foi apresentado como mais uma ação de contraterrorismo. Técnica, precisa, necessária. Mas há algo que escapa quando se aceita essa moldura sem perguntas. A Nigéria não é apenas um território instável; é um campo de tensão religiosa contínua, onde cristãos — sobretudo católicos — vivem há anos sob ameaça sistemática.

Na noite de Natal, Donald Trump usou suas redes sociais para transformar uma operação militar distante em um recado direto ao mundo. Ao anunciar ataques contra bases do ISIS no noroeste da Nigéria, o presidente enquadrou a ação como resposta a anos de violência contra cristãos inocentes. Mais do que relatar uma ofensiva, Trump desenhou um limite: a promessa de que massacres ignorados por décadas não permaneceriam sem reação. A partir dali, o conflito deixou de ser apenas regional e passou a carregar um peso simbólico — onde cada palavra, cada ataque e cada silêncio passam a ser lidos como sinais em um tabuleiro global ainda em movimento. 📸 captura de tela da rede social Truth Social

Grupos afiliados ao ISIS e ao Boko Haram não atacam apenas alvos estratégicos. Atacam símbolos. Igrejas, escolas católicas, aldeias marcadas pelo calendário litúrgico. O Natal, nesse contexto, não é coincidência. É mensagem. E o contra-ataque americano também carrega uma simbologia silenciosa: responder no mesmo dia em que a perseguição costuma se intensificar.

Mas essa camada raramente é explorada. A imprensa prefere a neutralidade técnica, como se o conflito fosse apenas geopolítico. Fala-se em “militantes”, evita-se falar em mártires. Fala-se em “regiões disputadas”, evita-se dizer “aldeias cristãs dizimadas”. O vocabulário também escolhe lados — ou omissões.

Esse ataque expõe uma contradição desconfortável: quando cristãos morrem em massa na África, o mundo pede contexto; quando há reação militar, pede-se cautela. No meio disso, comunidades inteiras seguem invisíveis.

Já foi apontado anteriormente — inclusive em uma análise sobre as “vozes invisíveis” da perseguição cristã global — que certas tragédias só ganham relevância quando servem a interesses estratégicos. O restante permanece fora do enquadramento.

🗺️ Turquia, Células Adormecidas e o Mapa Oculto

No mesmo dia em que bombas caíam na Nigéria, forças de segurança turcas batiam a dezenas de portas. Prisões silenciosas, quase burocráticas. Suspeitos de integrar células do ISIS, planos de ataques durante datas simbólicas, alvos civis. Nenhum espetáculo. Nenhuma comoção global. Apenas a confirmação de algo que se insiste em negar: o jihadismo não desapareceu — apenas mudou de forma.

Uma operação da Turquia varreu Istambul esta quinta-feira, deixando rastros de tensão e mistério. Com mandados de captura contra 137 suspeitos de planejar ataques de Natal e Ano Novo, a polícia prendeu 115 pessoas em 124 domicílios, mergulhando a cidade em um alerta silencioso, onde cada porta arrombada e cada investigação revelam apenas fragmentos de um plano sombrio prestes a ser desvendado. 📸 Emrah Gurel/The AP

A Turquia ocupa um ponto sensível nesse tabuleiro. Ponte entre continentes, fronteira entre narrativas, território onde o extremismo não se apresenta como invasão externa, mas como infiltração silenciosa. Quando prisões acontecem ali, revelam que a ameaça não está confinada a desertos distantes. Ela circula, aguarda, se adapta.

A simultaneidade entre Nigéria e Turquia não é casual. Ela sugere uma rede fragmentada, porém conectada. Enquanto aldeias cristãs são atacadas na África, células planejam repetir o roteiro em centros urbanos mais visíveis. A diferença está na repercussão — não na motivação.

A Igreja Católica insiste há anos em nomear o fenômeno: perseguição religiosa. E quando a morte ocorre por ódio à fé, fala-se em martírio. Não como provocação ideológica, mas como categoria espiritual. Essa linguagem incomoda porque obriga a reconhecer que a violência não é aleatória — ela tem alvo.

E quando o alvo se torna claro, o silêncio passa a ser uma escolha.

🕯️ A Fé Sob Ataque e a Liturgia do Esquecimento

Na África, professar o cristianismo não é apenas um ato espiritual. É, muitas vezes, uma condição de risco. Igrejas queimadas, padres sequestrados, comunidades deslocadas. Ainda assim, essa realidade raramente alcança o centro do debate público global. Quando aparece, surge diluída em expressões genéricas como “violência regional” ou “instabilidade local”.

Mais de 7.000 cristãos perderam a vida na Nigéria nos primeiros 220 dias de 2025, uma média aterradora de 35 assassinatos por dia. Cada número carrega histórias de igrejas silenciadas, famílias dilaceradas e uma sociedade que tenta compreender como a fé se tornou alvo em meio à violência crescente. Enquanto ONGs clamam por respostas, o país observa, tenso, cada dia que passa como se o relógio marcasse não apenas o tempo, mas o custo da insegurança. 📸 AP/AP

A Igreja Católica tem sido consistente ao denunciar essa dinâmica como uma violação grave da dignidade humana e da liberdade religiosa. Em sua leitura teológica, os cristãos mortos por ódio à fé são mártires contemporâneos — testemunhas de uma fidelidade que atravessa séculos. Mas esse enquadramento exige algo que muitos evitam: reconhecer que existe perseguição religiosa ativa no mundo moderno.

Esse reconhecimento colide com a lógica midiática dominante. Admitir mártires cristãos implica aceitar que nem todas as vítimas cabem nas narrativas morais mais convenientes. Algumas são ignoradas não por falta de provas, mas por excesso de desconforto.

O ataque americano, as prisões na Turquia e os massacres africanos formam um tríptico perturbador. Eles mostram que a guerra ideológica-religiosa não terminou — apenas foi deslocada para fora do foco. Enquanto se discute semântica, comunidades inteiras vivem sob ameaça permanente.

Talvez a maior operação em curso não seja militar, mas simbólica: decidir o que merece ser lembrado — e o que pode ser esquecido.

🎬 Pílula Cultural

Em Silêncio, de Martin Scorsese, a violência não explode — ela se infiltra. O sofrimento não grita — ele espera. A fé não vence pela força — ela resiste na ausência de respostas. Ambientado no Japão do século XVII, o filme acompanha missionários jesuítas que enfrentam uma perseguição meticulosa, calculada, quase pedagógica. O inimigo não quer apenas matar. Quer quebrar o espírito, forçar a renúncia pública, transformar a fé em vergonha íntima. O silêncio de Deus, ali, não é abandono — é prova.

Na Suécia, caminhos se cruzam sob a sombra de um ataque iminente do Estado Islâmico. Uma mãe em apuros, uma policial ambiciosa e uma estudante veem suas vidas entrelaçadas por um fanatismo silencioso, que cresce nos vazios da identidade e na promessa de pertencimento. Califado mostra que o radicalismo não explode, ele seduz — oferecendo sentido em troca de obediência, transformando desorientação em armadilha. 📸 Divulgação/Netflix

Essa lógica ecoa perigosamente no presente. Na Nigéria, igrejas queimadas e aldeias cristãs dizimadas repetem o mesmo roteiro: a tentativa de apagar a fé não apenas pelo terror, mas pela normalização da violência. Em Silêncio, os mártires não são celebrados; são ocultados. Exatamente como hoje.

Já a série Califado opera no extremo oposto do espectro simbólico. Se Silêncio mostra a fé sendo esmagada, Califado revela como o fanatismo nasce no vazio. Jovens deslocados, identidades fragmentadas, discursos que oferecem pertencimento em troca de obediência absoluta. O radicalismo ali não surge como explosão, mas como sedução. Ele promete sentido onde há desorientação.

A conexão entre os dois é inquietante. Enquanto uns morrem por se recusarem a renunciar à fé, outros matam acreditando defendê-la. Ambos operam sob absolutos — mas apenas um deles aceita o sacrifício sem impor a morte ao outro.

O ataque às bases islâmicas na Nigéria, as prisões na Turquia, o silêncio midiático sobre cristãos perseguidos — tudo isso vive nesse intervalo simbólico entre Scorsese e Califado. Entre a fé que suporta o silêncio e o extremismo que não tolera dúvida.

Talvez o maior conflito do nosso tempo não seja entre religiões, mas entre quem aceita o mistério… e quem precisa impor respostas pela força.

 …

Talvez o mais inquietante nesta história não sejam as bombas, nem as prisões, nem os números que nunca fecham. Talvez seja a naturalização do esquecimento. Quando ataques a cristãos se tornam notas de rodapé, quando o terrorismo religioso vira “contexto regional”, quando a fé perseguida se torna um detalhe inconveniente.

O ataque americano na Nigéria não encerra o problema. As prisões na Turquia não eliminam a ameaça. As palavras da Igreja não devolvem vidas. Mas tudo isso revela algo essencial: existe uma guerra que não cabe nas manchetes, e vítimas que não se encaixam nas narrativas aceitas.

A questão final não é militar, nem ideológica. É humana.

👉 Quem decide quais mortes importam — e quais podem permanecer invisíveis?

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