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Imagem gerada por IA.

A cidade não dormia.
Não porque fosse madrugada, mas porque o silêncio havia sido interditado. O cheiro de borracha queimada misturava-se à pólvora, e o som distante de rajadas marcava o tempo como um relógio quebrado. Em algum ponto da estrada, caminhões incendiados projetavam sombras armadas nas paredes das casas.

O rádio falava em “coordenação”. A televisão pedia “calma”. Mas nas ruas todos sabiam que algo havia se rompido. Não era apenas mais uma operação. Não era apenas mais um confronto. Um nome atravessava mensagens cifradas e sussurros: Nemesio Oseguera Cervantes.

Quando um rei cai, o tabuleiro não se organiza — ele incendeia. O Estado anuncia controle. O crime responde com fogo. E o cidadão comum aprende, outra vez, que a guerra moderna não começa com tanques cruzando fronteiras, mas com o medo cruzando janelas fechadas.

🧠 O Homem que Virou Sistema

Chamavam-no de El Mencho, mas o apelido já não bastava para descrevê-lo. Ele não foi apenas um chefe do narcotráfico. Tornou-se um modelo operacional de poder criminal — alguém que transformou violência em método e domínio em rotina.

Durante quase três décadas, o nome de Nemesio Rubén Oseguera Cervantes circulou nas sombras do poder paralelo no México. De uma condenação por tráfico de heroína nos Estados Unidos, em 1994, à liderança do Cartel Jalisco Nueva Generación, El Mencho construiu uma organização que cresceu rápido demais para ser ignorada — e forte demais para ser apenas um grupo criminoso. Sua trajetória revela como o narcotráfico deixou de ser marginal e passou a operar como sistema, onde cada prisão, deportação ou silêncio institucional redefine o equilíbrio da violência. 📸 Captura de tela

À frente do Cartel Jalisco Nueva Generación, El Mencho construiu algo mais próximo de uma organização militar descentralizada do que de um cartel tradicional. Helicópteros abatidos, comboios incendiados, cidades bloqueadas não eram excessos: eram linguagem. A mensagem era simples e brutal — o poder estava ali, visível, armado e disposto a ser lembrado.

O analista de segurança mexicana Carlos Pérez Ricart observa que uma das razões para a queda das taxas de homicídio em certas regiões foi justamente o fato de o CJNG ter alcançado um monopólio de poder local. Onde há apenas um senhor da guerra, paradoxalmente, há menos disputas abertas. Mas esse equilíbrio é frágil. Com a morte do líder, essa dinâmica tende a colapsar.

Ricart também destaca que o CJNG opera como uma rede de “franquias”: grupos semi-autônomos, conectados por marca, recursos e reputação, mas capazes de mudar alianças ou se fragmentar quando o centro desaparece. A morte de El Mencho, portanto, não desmonta o sistema — desorganiza seu eixo, abrindo espaço para disputas internas e novas explosões de violência.

O que se seguiu não foi improviso. Foi retaliação previsível. Bloqueios, incêndios e ataques coordenados não buscavam vencer o Estado, mas lembrar que, mesmo sem seu fundador, o modelo permanece ativo — e perigoso.

🏛️ O Estado que Disputa Território

Nenhum cartel domina um país sozinho. Ele ocupa espaços que já estavam vazios. No México, esses vazios foram cavados por décadas de desigualdade persistente, corrupção estrutural e uma guerra às drogas que elimina nomes, mas preserva mercados.

Nos últimos dias, o México deixou de viver apenas uma crise de segurança e passou a respirar um clima de guerra interna. Carros incendiados, estradas bloqueadas e cidades paralisadas compõem um cenário que lembra mais um conflito civil do que uma operação policial. A morte do El Mencho, não encerrou a violência — detonou uma disputa aberta por território, poder e sobrevivência. O que se vê não é caos espontâneo, mas frentes de batalha difusas, onde o Estado tenta se afirmar enquanto grupos armados testam seus limites. Quando a rotina vira trincheira, a guerra já começou — mesmo sem declaração oficial. 📸 Reprodução do Instagram/@morelifediares via REUTERS

Quando o Estado não entrega justiça, o crime entrega regras. Quando a presença institucional falha, surgem homens armados oferecendo “ordem”. O cartel não substitui o Estado oficialmente — ele imita suas funções, com eficiência brutal.

Após a morte de El Mencho, a presidente Claudia Sheinbaum pediu calma à população, afirmando haver coordenação entre o governo federal e os estados. O discurso buscava estabilidade, normalidade, continuidade. O Ministério da Defesa, por sua vez, afirmou que a morte ocorreu após ataque direto às forças militares, caracterizando legítima defesa durante a operação.

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Mas especialistas em segurança alertam: o problema raramente é a operação em si — é o dia seguinte. A estratégia de eliminar lideranças cria vácuos. E vácuos atraem disputa. Fragmentação significa mais violência, não menos.

Cada líder abatido inaugura uma sucessão silenciosa. Cada facção precisa provar força para existir. O resultado é um conflito permanente, sem declaração formal, mas com efeitos de guerra localizada. Não há frentes claras. Não há tratados. Apenas ciclos.

O México, nesse contexto, não é um Estado ausente. É um Estado contestado, onde a soberania não desaparece, mas oscila conforme quem controla a estrada, o bairro ou a noite.

🌐 Inteligência, Cooperação e Limites

A queda de El Mencho não foi apenas mexicana. Foi internacional. Autoridades confirmaram cooperação de inteligência com os Estados Unidos, embora a operação tenha sido conduzida exclusivamente por forças mexicanas.

Com viaturas cruzando as ruas a toda hora, bloqueios e cidades em alerta, o poder tenta falar baixo.
Após a operação militar que matou um dos líderes mais temidos do narcotráfico, a presidente Claudia Sheinbaum pediu calma e reforçou a ideia de controle. Mas fora dos comunicados oficiais, o México vivia dias que já não pareciam crise — e sim um conflito aberto, disputado rua por rua. 📸 CARL DE SOUZA / AFP

Relatórios indicam que uma força-tarefa interagências norte-americana ajudou a mapear redes financeiras, rotas e comunicações do CJNG. O Departamento de Estado dos Estados Unidos havia oferecido recompensa milionária por informações que levassem à captura de El Mencho, reconhecendo-o como peça central no tráfico de fentanil.

Essa cooperação revela um consenso estratégico: o líder era um alvo prioritário. Mas também expõe um limite conhecido. Inteligência desmonta hierarquias. Não reconstrói tecido social.

A própria comunidade de segurança reconhece que a vitória é tática, não estrutural. Sem reformas profundas — justiça funcional, combate à lavagem de dinheiro, alternativas econômicas reais — o ciclo se repete. Com novos nomes. Novos rostos. A mesma lógica.

A guerra moderna não precisa de tanques ou fronteiras definidas. Ela se instala na economia ilegal, na fragilidade institucional e no silêncio imposto. Enquanto o debate público busca culpados simples, a engrenagem segue girando — precisa, violenta e paciente.

🎬 Pílula Cultural

Há histórias que não tentam explicar o mundo. Apenas o expõem.
Traffic é uma delas.

O filme não procura vilões simples nem heróis confortáveis. Ele fragmenta a narrativa como o próprio narcotráfico fragmenta responsabilidades. Policiais, juízes, políticos, traficantes, famílias — todos presos na mesma engrenagem, cada um empurrando uma peça enquanto acredita controlar o todo. O resultado é desconfortável: ninguém está completamente fora do sistema, e ninguém o domina por inteiro.

Traffic: Ninguém Sai Limpo costura histórias paralelas para mostrar como o narcotráfico ultrapassa fronteiras e dissolve certezas. Da corrupção institucional ao colapso familiar, o filme expõe uma lógica perversa: eliminar peças não desmonta a engrenagem — apenas a redistribui. 📸 Bedford Falls / Initial Ent / REX / Shutterstock

Traffic conversa diretamente com o que vimos no México. A queda de um líder, a cooperação internacional, os discursos oficiais — tudo isso aparece no filme como camadas de uma mesma ilusão: a de que basta remover uma peça para que a máquina pare. Mas a máquina continua. Silenciosa. Eficiente. Global.

Breaking Bad desloca o foco. Sai do macro e mergulha no micro. Mostra como o sistema não apenas corrompe Estados, mas recruta indivíduos comuns. Walter White não entra no crime por ideologia, mas por cálculo. Não começa violento, mas torna-se. Não busca poder — até perceber que o poder o reconheceu.

A série revela algo essencial para entender fenômenos como o CJNG: o narcotráfico não se sustenta apenas pela força armada, mas pela normalização gradual do inaceitável. Cada decisão parece pequena. Cada concessão parece temporária. Até que não há mais retorno.

Juntas, Traffic e Breaking Bad desenham o mesmo mapa sombrio: um mundo onde o crime não é um corpo estranho, mas uma extensão lógica de falhas estruturais. Onde líderes caem, personagens morrem, mas o sistema aprende, se adapta e segue.

A ficção entende antes porque não precisa de notas oficiais. Ela apenas observa — e mostra que, no fim, a pergunta nunca foi quem aperta o gatilho, mas quem alimenta a engrenagem.

Talvez a pergunta errada seja quem matou El Mencho.
A pergunta certa é: quem o tornou possível?

Homens não surgem do nada. Eles são produtos de sistemas que toleram, ignoram ou lucram com sua existência. A queda de um líder não encerra o modelo — apenas o expõe.

O México não vive apenas uma crise de segurança, mas uma crise de soberania fragmentada, onde o poder muda de mãos conforme a força disponível. Hoje é o CJNG. Amanhã, outro nome. A lógica permanece.

Se a violência virou linguagem, o que isso diz sobre quem deveria impor a lei?
E mais inquietante: quantos “El Menchos” estão sendo formados agora, silenciosamente, enquanto o mundo observa apenas o último que caiu?

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