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O que Vem Depois do Silêncio? Os Riscos Invisíveis de uma Transição no Irã

Protestos entram em nova fase no Irã e expõem uma questão maior: o que acontece quando um regime enfraquece, mas o poder permanece?

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Imagem gerada por IA.

Teerã acorda antes do sol. Não por disciplina, mas por medo. As ruas ainda guardam marcas da noite anterior: um cartaz arrancado, uma vitrine quebrada, um slogan escrito às pressas. Uma mulher atravessa a avenida com passos calculados. O véu cobre o cabelo, não a raiva. Ela sabe que cada câmera observa, que cada esquina tem memória.

Os protestos iniciados em 28 de dezembro de 2025 já ultrapassam dez dias consecutivos de mobilização, segundo agências internacionais e organizações de direitos humanos. Teerã, Shiraz, Isfahan e Mashhad repetem o mesmo ritual: gritos, confrontos breves com forças de segurança e o eco inquietante de uma população que já não aceita respostas fáceis.

O regime sustenta que o controle está sob rédeas curtas. Organizações independentes apontam para repressão crescente: prisões, restrições à internet e vigilância reforçada. Ainda assim, algo persiste nas ruas — não apenas revolta, mas a sensação instável de que a história iraniana se aproxima de uma inflexão.

No Irã, o futuro não é uma promessa. É um território disputado por fantasmas, traumas e desejos. E ninguém sabe quem chegará primeiro.

🧱 Quando o Regime Cai, o que Ocupa o Lugar?

 Ao entrar em sua segunda semana, o atual ciclo de protestos no Irã mantém-se espalhado por diversas províncias. Agências internacionais como Reuters, BBC e Al Jazeera, além de organizações como Human Rights Watch e Amnesty International, documentam prisões em massa, repressão nas ruas e denúncias consistentes de violência estatal. O estopim imediato foi econômico, mas a mobilização rapidamente incorporou múltiplas camadas sociais: mulheres, jovens, estudantes e trabalhadores.

Tudo começou como um ajuste econômico, mas rapidamente se tornou algo mais difícil de conter. Quando mulheres, jovens, estudantes e trabalhadores passaram a ocupar o mesmo espaço nas ruas do Irã, a crise deixou de ser pontual e passou a ser estrutural. Segundo organizações independentes, ao menos 36 manifestantes morreram desde o início dos protestos, entre eles cinco menores de idade. O governo afirma ter dispersado ‘reuniões esporádicas’. A pergunta que permanece não é sobre o controle do presente, mas sobre o que acontece quando diferentes partes de uma sociedade deixam de se mover separadamente.
📸 Lab Ky Mo/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

O maior risco de uma transição política não está apenas na queda de um governo, mas no vazio que pode se abrir depois dela. Décadas de repressão enfraqueceram partidos, instituições civis e mecanismos de mediação política. Hannah Arendt alertava que, quando o espaço público é sistematicamente destruído por regimes autoritários, o que resta após seu colapso não é pluralismo espontâneo, mas um terreno frágil, vulnerável à captura.

Nesse cenário, vence quem melhor se organiza. Max Weber descreveu esse fenômeno como o retorno da dominação carismática, comum em períodos de ruptura: a esperança coletiva se desloca das instituições para figuras ou grupos capazes de oferecer ordem e direção. No Irã contemporâneo, esse risco é ampliado pela fragmentação da oposição. Reformistas, movimentos feministas, sindicatos, jovens urbanos e grupos no exílio compartilham a rejeição ao regime, mas divergem profundamente quanto ao projeto de futuro.

Sem um pacto mínimo entre essas forças, qualquer transição pode ser apropriada por grupos com maior disciplina organizacional, recursos ou apoio externo — nem sempre alinhados às demandas centrais das ruas. O “depois” de uma queda pode não significar liberdade imediata, mas uma disputa silenciosa pelo controle de um Estado sem bases institucionais sólidas.

🕰️ 1979: o Trauma que Ainda Governa o Presente

Toda discussão sobre transição no Irã carrega a memória de 1979. A Revolução que derrubou a monarquia de Mohammad Reza Shah Pahlavi e levou à instalação da República Islâmica tornou-se, ao mesmo tempo, referência histórica e advertência política. O regime atual explora essa lembrança como ferramenta narrativa: sustenta que rupturas profundas conduzem inevitavelmente ao caos, à guerra e ao isolamento internacional.

Antes de 1979, o cotidiano iraniano era atravessado por escolhas hoje difíceis de imaginar. Nas décadas de 1960 e 1970, mulheres circulavam, estudavam e trabalhavam vestidas como desejavam, em uma sociedade que experimentava outros ritmos de modernidade. A Revolução Islâmica redesenhou esse espaço público, substituindo costumes por normas e liberdade individual por vigilância moral. A imagem não é apenas um registro do passado — é um lembrete de como rupturas históricas podem redefinir, por gerações, o que significa viver em público.
📸 Getty Images

Esse argumento dialoga com o conceito de autoritarismo preventivo — a ideia de que a repressão se justifica como proteção contra um futuro ainda pior. Ao longo do tempo, o medo se normaliza e passa a funcionar como substituto de projeto político. Não porque o presente seja aceitável, mas porque o desconhecido parece ameaçador demais.

Paradoxalmente, cresce também uma nostalgia seletiva. Entre jovens que não viveram o período pré-1979, o passado passa a ser visto como uma era de normalidade perdida. O historiador Ervand Abrahamian adverte que nostalgia não constrói instituições: ela oferece conforto simbólico, não soluções estruturais.

Nesse intervalo estreito entre medo e idealização, uma transição exige mais do que a rejeição ao regime atual. Exige memória crítica. Abdolkarim Soroush, filósofo iraniano no exílio, argumenta que o erro central da Revolução Islâmica foi transformar uma visão moral em um sistema absoluto de poder. Reproduzir esse padrão — seja por meio de religião, ideologia ou nacionalismo — significaria apenas substituir o rosto da dominação.

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A experiência iraniana sugere que o verdadeiro desafio não é derrubar um governo, mas criar instituições capazes de limitar qualquer governo futuro. Sem isso, a história tende a se repetir — não como farsa, mas como reincidência estrutural.

⚠️ Vencer Sem Saber Governar: o Risco Invisível

Movimentos de contestação costumam ser julgados pelo momento da ruptura, não pela capacidade de governar depois dela. Charles Kurzman observa que a Revolução de 1979 triunfou menos por planejamento e mais pelo colapso da legitimidade do regime anterior. Esse padrão reaparece com frequência: a rejeição ao poder vigente não se converte automaticamente em projeto institucional.

Nem todo movimento nasce com líderes, mas todo colapso deixa um espaço a ser ocupado. No Irã, protestos horizontais desafiam a repressão e expõem um dilema mais profundo: quem assume quando o poder vacila? A história do país — moldada por interesses estratégicos desde a descoberta do petróleo — sugere que transições raramente são neutras. O artigo de hoje investiga esse ponto invisível: o que vem depois quando um regime começa a perder o controle.
📸 Captura de tela – Monitor do Oriente Médio

As manifestações em curso no Irã chamam atenção por seu caráter descentralizado e horizontal. Essa estrutura dificulta a repressão total, mas também impõe limites quando se pensa em transição. Movimentos sem liderança definida são eficazes para contestar, mas vulneráveis à apropriação posterior por forças mais organizadas.

Amartya Sen lembra que liberdade não é apenas ausência de coerção; é a capacidade real de escolha, sustentada por instituições como imprensa livre, Judiciário independente e garantias para oposição. No Irã, essas estruturas foram historicamente corroídas. O risco, portanto, é que a liberdade permaneça simbólica mesmo após uma eventual mudança de regime.

O perigo maior não é o fracasso imediato da transição, mas o sucesso mal administrado. Quando um poder cai sem que haja mecanismos claros para substituí-lo, tende a surgir outra forma de autoritarismo — agora legitimada pela promessa de estabilidade.

O futuro iraniano dependerá menos da derrubada do regime atual e mais da capacidade coletiva de construir um Estado que aceite limites, preserve dissensos e proteja direitos, inclusive daqueles que não compartilham a visão dominante. Sem isso, a mudança corre o risco de ser apenas uma troca de guardiões.

🎬 Pílula Cultural

Em Sem Ursos (No Bears), Jafar Panahi não fala apenas de um regime — fala da impossibilidade de escapar dele. O filme se constrói a partir de uma ausência: o diretor está proibido de filmar livremente, proibido de sair do país, proibido de existir fora das margens impostas pelo poder. Ainda assim, ele filma. À distância. Pelas frestas. Como quem observa uma transição que nunca chega por completo.

Em Sem Ursos, Jafar Panahi constrói duas histórias de amor atravessadas não por vilões evidentes, mas por obstáculos invisíveis: medo, superstição e relações de poder que se impõem antes mesmo do conflito aparecer. O filme não fala apenas de afetos frustrados, mas de escolhas limitadas por regras não escritas — aquelas que moldam comportamentos, silenciam desejos e transformam o cotidiano em vigilância. Exibido nos festivais de Veneza e Toronto, o longa usa o íntimo para revelar o político, mostrando como o controle persiste mesmo quando parece ausente.”
📸 Divulgação

A vila onde a história se desenrola vive sob regras não escritas, sustentadas por medo, vigilância coletiva e tradições que funcionam como polícia invisível. Não há tanques, nem grandes discursos — apenas a certeza de que qualquer tentativa de ruptura cobra um preço. Sem Ursos dialoga diretamente com o dilema iraniano contemporâneo: mesmo quando o Estado parece longe, o controle permanece internalizado. A transição, ali, não é um evento político, mas um abismo psicológico.

Já a série Teerã desloca o olhar para o coração urbano do poder. A capital iraniana surge como um organismo vivo, atravessado por câmeras, códigos, agentes duplos e silêncios estratégicos. Nada é estável. Ninguém é exatamente quem parece ser. A série não romantiza o regime, tampouco oferece heróis claros. Seu maior mérito está em revelar como Estados autoritários sobrevivem não apenas pela força, mas pela confusão constante, pela sensação de que o chão pode desaparecer a qualquer passo.

Juntas, a obra de Panahi e a série Teerã formam um espelho incômodo: mesmo quando o regime é questionado nas ruas, o verdadeiro desafio está no que permanece depois. O medo que se infiltra nas relações, a vigilância que molda escolhas, a dificuldade de imaginar um futuro que não reproduza os mesmos mecanismos de controle.

A pergunta que ambas deixam no ar é a mesma que ecoa no Irã real: como atravessar uma transição quando o poder já aprendeu a morar dentro das pessoas?

Talvez a pergunta mais honesta sobre o Irã não seja quando o regime cairá, mas o que acontecerá quando ele cair. A história mostra que derrubar um governo é um momento; construir limites para o próximo é um processo longo e instável.

O risco que assombra transições políticas não é apenas a resistência do poder, mas a incapacidade de instituir mecanismos que limitem o poder futuro. Sociedades moldadas pela vigilância carregam, mesmo após a libertação, reflexos do controle: medo, desconfiança e desejo por ordem.

Quando um regime cai, decisões silenciosas definem o destino do país: quem escreve as leis, quem controla a força, quem estabelece os limites. A liberdade não surge sozinha; ela precisa ser construída.

Quando a opressão ceder, o Irã estará preparado para não reconstruí-la com outro nome?

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