
Imagem gerada por IA.
Era uma noite quente em São Francisco quando as portas de um auditório se abriram para algo mais do que uma palestra: um rito moderno, quase litúrgico. No palco, Peter Thiel não falava apenas de tecnologia ou investimentos, mas evocava o Anticristo, o katechon, e o peso da história como se a audiência estivesse diante de uma profecia. Alguns riram, outros se inquietaram, mas todos permaneceram — fascinados, desconfortáveis, provocados.
Do lado de fora, manifestantes seguravam cartazes que misturavam slogans políticos e imagens de filmes de terror. Do lado de dentro, jornalistas, acadêmicos e curiosos olhavam uns para os outros, tentando decifrar se aquilo era filosofia, teatro, provocação… ou o esboço de um manual para o futuro.
E assim, entre o religioso e o tecnológico, o espetáculo do Armagedom de Thiel se tornou parte do noticiário global. Afinal, o que está em jogo quando um dos homens mais poderosos do mundo decide falar em tom profético?
📜 O Roteiro Apocalíptico de um Bilionário
Peter Thiel, cofundador do PayPal e investidor do Facebook e da Palantir, poderia gastar seus dias falando sobre startups, balanços financeiros ou inovação em IA. Mas preferiu outro palco: o das metáforas bíblicas.
Em suas palestras mais recentes, Thiel evoca o conceito de katechon — a força que, segundo a tradição cristã, retarda o fim dos tempos. Para ele, esse freio é cada vez mais frágil em um mundo onde a tecnologia se acelera sem trégua. Ao lado desse conceito, surge o Anticristo: não apenas uma figura religiosa, mas uma alegoria que atravessa política, economia e cultura.
A origem dessa visão remonta aos anos 1990, quando Thiel estudou o jurista Carl Schmitt e se aproximou das leituras de René Girard, teórico francês conhecido por suas reflexões sobre desejo mimético e violência. Schmitt falava da política como um embate entre amigos e inimigos; Girard via na repetição dos conflitos humanos o motor das sociedades. Thiel transformou esses referenciais em lentes para enxergar o presente.
O resultado é uma espécie de dramaturgia apocalíptica que combina religião, geopolítica e Vale do Silício. Para alguns, trata-se de uma provocação calculada; para outros, de uma preocupação genuína com os rumos da humanidade. De qualquer forma, o simples fato de um bilionário global insistir em metáforas de fim do mundo já é suficiente para mobilizar audiências, protestos e colunas de opinião.
E é justamente essa interseção — entre poder econômico, tecnologia e narrativa simbólica — que faz do discurso de Thiel algo mais do que excentricidade: é um sinal de como o imaginário apocalíptico volta a ganhar força em plena era da inteligência artificial.
🌍 Entre Conspiração e Estratégia: O Jogo do Poder
Se os discursos de Thiel soam conspiratórios, é porque tocam em um nervo exposto: a sensação de que vivemos em um tabuleiro global permanentemente à beira do colapso.

Enquanto Thiel alerta sobre profecias milenares — ‘Quando disserem: “Há paz e segurança”, então lhes sobrevirá destruição repentina’ (1 Tessalonicenses 5:3) — Donald Trump apresenta um plano de 20 pontos para Gaza, prometendo 'paz eterna ao Oriente Médio'. O anúncio, ao lado de Netanyahu, mistura fé, poder e política em um momento de tensão histórica. (Foto: EPA)
Reportagem recente da BBC apontou como ideias de fim do mundo encontram terreno fértil em tempos de crises múltiplas — guerras, instabilidade política e medo da tecnologia. Nesse cenário, falar do Anticristo é mais do que metáfora: é um espelho da ansiedade coletiva.
Enquanto isso, os movimentos no tabuleiro real reforçam esse pano de fundo. A Rússia intensificou o transporte de petróleo e gás pelo Ártico rumo à China, criando novas rotas estratégicas que desafiam o Ocidente. Ao mesmo tempo, a Argentina anunciou exercícios militares em parceria com os Estados Unidos, sinalizando novas tensões e alinhamentos no hemisfério sul.
Essas notícias parecem distantes das conferências de Thiel em São Francisco, mas compõem o mesmo pano de fundo. Para ele, regular a inteligência artificial ou impor limites às big techs pode ser interpretado como fragilizar o Ocidente diante de rivais que avançam sem medo. Nesse sentido, “o Anticristo” surge como metáfora do inimigo que ameaça o equilíbrio global.
Ao transformar política e tecnologia em símbolos escatológicos, Thiel conecta eventos concretos a uma narrativa que prende a atenção — e gera polêmica. No fim, sua retórica é menos sobre religião e mais sobre disputa de poder: quem controla a IA, controla não apenas o mercado, mas a narrativa do futuro.
🎭 Cultura, Protestos e a Batalha Simbólica
Em setembro de 2025, uma das palestras de Thiel sobre o Anticristo, em São Francisco, foi recebida com protestos do lado de fora. Manifestantes viam em suas falas não filosofia, mas um projeto de poder disfarçado de teologia. Do lado de dentro, alguns aplaudiam, outros saíam perplexos.
O San Francisco Chronicle descreveu como cartazes exibiam frases irônicas ao lado de imagens de monstros apocalípticos. Já o SF Standard destacou entrevistas com participantes que não sabiam se estavam diante de uma aula de filosofia ou de uma performance política. Até mesmo um padre escreveu em jornal local alertando para os perigos de transformar o Anticristo em metáfora banal.
Esse contraste entre aplauso e repúdio mostra como Thiel se tornou um personagem cultural. Ele não fala apenas para especialistas: sua retórica ecoa em redes sociais, memes, podcasts e newsletters. O resultado é um campo simbólico em disputa, onde o imaginário apocalíptico se mistura à cultura digital.
E aqui reside um ponto central: a batalha de narrativas não se limita à economia ou à política. Quando um bilionário fala em termos proféticos, ele atravessa o território da cultura. Assim, seus discursos são apropriados por artistas, críticos, religiosos e jovens curiosos em busca de sentido. O Anticristo, nesse contexto, deixa de ser figura bíblica para se tornar meme, metáfora e até produto de mercado.
Seja performance, filosofia ou provocação, o fato é que Thiel conseguiu algo raro: transformar uma metáfora religiosa em trending topic global.
🎬 Pílula Cultural
Para decifrar o impacto cultural do discurso de Thiel, vale recorrer à ficção. Duas obras ajudam a enxergar as camadas dessa narrativa.
Matrix (1999) — O clássico das Wachowski apresenta um mundo controlado por máquinas, onde a realidade é apenas uma simulação. A escolha entre a pílula azul e a vermelha virou símbolo de despertar ou submissão. Aqui, vemos paralelos claros com a retórica de Thiel: regular a inteligência artificial pode ser visto como “tomar a pílula azul”, aceitar limites e ilusões; já permitir seu avanço seria abraçar a pílula vermelha, arriscando-se no abismo de um futuro incerto. Matrix é mais do que ficção científica — é um mito moderno sobre controle, liberdade e apocalipse tecnológico.
Devs (2020, Alex Garland) — Esta minissérie mergulha em uma empresa de tecnologia que constrói um supercomputador capaz de prever todos os acontecimentos, questionando o livre-arbítrio. A trama sugere que, em última instância, algoritmos podem se tornar a nova teologia — substituindo deuses por códigos. O paralelo com o discurso de Thiel é direto: se a IA carrega em si a promessa do destino humano, falar do Anticristo é também falar do medo de perder o controle.
Ambas as obras, cada uma a seu modo, traduzem em imagens e narrativas as mesmas tensões que hoje ocupam os palcos de conferências no Vale do Silício. Ao assisti-las, percebemos que a ficção não apenas imita a realidade, mas a antecipa — e talvez explique melhor do que discursos e artigos o que significa viver em um mundo à beira de um “fim dos tempos” tecnológico.
…
Afinal, por que um dos homens mais influentes do mundo insiste em falar sobre o Anticristo?
Talvez porque a metáfora seja poderosa demais para ser ignorada. Em um tempo em que algoritmos decidem rotas de aviões, investimentos e até relacionamentos, a figura do inimigo final concentra todas as ansiedades coletivas. Thiel não oferece respostas claras — ele apenas dramatiza o dilema.
No fundo, suas palestras são mais sobre espelhos do que sobre profecias. Espelhos de um Ocidente inseguro, de um Vale do Silício obcecado por controle, e de uma cultura que mistura religião e ficção científica para tentar dar sentido ao caos.
E aqui fica a provocação que a Conspira Café deixa para você: estamos diante de um visionário que usa símbolos bíblicos para alertar sobre o futuro… ou de um estrategista que encontrou no apocalipse a narrativa perfeita para moldar poder e influência?
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