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Imagem gerada por IA.

Na madrugada em Pequim, os corredores do poder não fazem barulho. Não há gritos, nem tanques nas ruas. Apenas nomes que desaparecem. Um general deixa de atender o telefone. Outro não aparece na cerimônia. Um terceiro some das fotos oficiais. Na China, o silêncio é o primeiro aviso.

Durante décadas, o Exército Popular de Libertação foi treinado para a guerra externa. Agora, parece treinado para sobreviver à guerra interna. Xi Jinping observa mapas antigos, retratos de Mao, relatórios selados. Ele sabe que impérios não caem quando perdem força — caem quando perdem controle.

Zhang Youxia, veterano, herdeiro de uma linhagem revolucionária, acreditou que lealdade histórica era blindagem suficiente. Não era. A lâmina nunca vem de fora quando o medo cresce por dentro.

O expurgo não foi anunciado como ruptura, mas como “disciplina”. Não foi chamado de golpe, mas de “retificação”. Porque na China, o vocabulário não descreve a realidade — ele a esconde.

E quando o poder começa a eliminar seus próprios guardiões, a pergunta nunca é quem caiu.
É quem será o próximo.

🧩 O Expurgo que Não Diz Seu Nome

Oficialmente, tudo é simples: corrupção, disciplina, moralização. Mas a linguagem usada pelo Partido Comunista Chinês denuncia algo mais profundo. Pela primeira vez em décadas, generais não foram acusados apenas de enriquecimento ilícito, mas de “pisotear a autoridade do presidente da Comissão Militar Central”. Isso não é crime administrativo. É heresia política.

Novembro de 2022. Xi Jinping inspeciona a Comissão Militar Central e o Centro de Comando de Operações Conjuntas. Ao seu redor, figuras que então simbolizavam continuidade: Ri Xiangpu, Zhang Youxia, Liu Zhenli. Hoje, quase todos foram removidos. O único remanescente é Zhang Shengmin, promovido enquanto os demais desapareceram da estrutura de comando. A imagem, registrada pela Xinhua-Yonhap, deixou de ser um retrato do poder coletivo para se tornar um arquivo do que foi apagado. Na China, a história recente não é revisada — é silenciosamente substituída. 📸 Xinhua–Yonhap

Desde 2023, a purga avançou como uma onda silenciosa. Começou na Força de Foguetes — o coração nuclear da China — e se espalhou para comandos regionais, indústria de defesa e, por fim, para o topo absoluto. Vice-presidentes da Comissão Militar Central, chefes do Estado-Maior, comandantes ligados a Taiwan, comissários políticos: todos caíram. Sete membros viraram dois. Um deles é o próprio Xi.

Analistas apontam que esse padrão não corresponde a campanhas anticorrupção tradicionais. Elas costumam poupar aliados estratégicos e preservar equilíbrio institucional. Aqui, aconteceu o oposto: aliados históricos foram removidos. Zhang Youxia, visto por anos como braço direito de Xi, tornou-se símbolo do novo limite do poder. Na China atual, proximidade não protege — expõe.

Exilados do regime descrevem o movimento como um “golpe preventivo”. Não contra um levante concreto, mas contra a possibilidade de autonomia. Em regimes personalistas, a maior ameaça não é a oposição aberta, mas o funcionário competente demais, o general respeitado demais, o homem com redes próprias demais.

A Comissão Militar Central sempre funcionou como amortecedor entre o líder e as forças armadas. Ao reduzi-la, Xi elimina filtros, conselhos e contrapontos. Ganha controle absoluto, mas perde redundância estratégica. Um ex-analista da CIA resumiu: é como comandar um exército moderno com um único general no mapa.

O expurgo, portanto, não é sinal de força tranquila. É sinal de vigilância permanente. Porque quem manda sozinho precisa confiar apenas no próprio reflexo.

🧠 Facções, Medos e o Fantasma de 2027

Toda purga revela mais pelo que destrói do que pelo que constrói. Ao mapear as quedas, surge um padrão inquietante: nenhuma facção sobreviveu intacta. Os veteranos revolucionários foram neutralizados. O braço nuclear foi desmontado. O comando voltado a Taiwan foi desarticulado. Até o aparato político-militar, responsável por fiscalizar a lealdade ideológica, foi atingido.

Apresentada como ‘autorrevolução’, a reestruturação militar promovida por Xi Jinping produziu um efeito silencioso e profundo: o esvaziamento das cadeias tradicionais de comando. A saída de generais com experiência real de combate marcou mais do que um ajuste disciplinar — marcou uma ruptura. Em um Exército que não testa suas doutrinas em guerras reais há décadas, cada destituição carrega um custo invisível. O discurso oficial fala em lealdade e eficiência; analistas observam fragilidade, improviso e um sistema que passa a confiar mais no controle do que na capacidade. Às vésperas de 2027, o dragão continua imponente no imaginário — mas sua estrutura interna parece cada vez mais dependente do silêncio. 📸 reprodução / X (@Ken_LoveTW)

Isso não é reorganização. É desmantelamento.

O pano de fundo é 2027 — o centenário do Exército Popular de Libertação. Oficialmente, o prazo para que a China tenha forças “capazes de vencer guerras modernas”. Extraoficialmente, um prazo psicológico. Xi Jinping não quer chegar a essa data com dúvidas internas. Nem sobre a capacidade do Exército. Nem sobre sua obediência.

Analistas de segurança levantam uma hipótese incômoda: a purga pode ter sido detonada por vazamentos estratégicos. Relatórios ocidentais detalhados demais sobre capacidades nucleares chinesas acenderam alertas em Pequim. Quando o núcleo da dissuasão é questionado, o regime reage como em estado de emergência. Não se investiga com cautela. Remove-se em massa.

Outros veem a questão como sucessão e longevidade. Xi rompeu regras informais, acumulou mandatos e centralizou decisões. Isso exige um exército que não pense, apenas execute. Um exército que não pergunte “por quê”, apenas “quando”.

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