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Às três da manhã, Jacareí ainda dormia enquanto governos recalculavam estoques de mísseis, munições e interceptadores. A guerra na Ucrânia havia transformado fábricas em ativos estratégicos; o Oriente Médio testava os limites dos escudos antimísseis; Estados Unidos, China e Europa aceleravam planos para produzir mais e depender menos de fornecedores externos.
No Brasil, uma fábrica que quase desapareceu reaparecia no mapa. A Avibras, conhecida pelo sistema ASTROS e por projetos de mísseis e tecnologia aeroespacial, estava mudando de mãos. Os compradores? Joesley e Wesley Batista, por meio da Globe Investimentos.
A coincidência estratégica é difícil de ignorar. No começo do século XX, John D. Rockefeller percebeu que petróleo significava mais que combustível: significava infraestrutura, escala e poder.
Em 2026, a pergunta é outra.
Se fabricar armas voltar a ser um ativo estratégico, quem estiver sentado sobre essa capacidade estará apenas fazendo negócios — ou comprando uma parcela do futuro?
🛰️ A Fábrica Estratégica que Voltou ao Mapa
A compra da Avibras precisa ser lida primeiro como fato empresarial, não como teoria. A Globe Investimentos, family office de Joesley e Wesley Batista, fechou acordo para adquirir 100% da Nova AVB, estrutura que concentra os ativos operacionais da Avibras Aeroco. A operação foi notificada ao Cade, e o valor não foi divulgado. A documentação apresentada ao órgão enquadra o negócio como uma entrada dos compradores nos setores de defesa nacional e aeroespacial.

Enquanto governos aumentam estoques de munições, mísseis e sistemas de defesa, uma antiga indústria estratégica brasileira acaba de mudar de mãos. Os irmãos Wesley e Joesley Batista assumem a Avibras, empresa que acumulou décadas de conhecimento em foguetes, mísseis, veículos especiais e no sistema ASTROS. A coincidência temporal chama atenção: depois de sobreviver a uma crise financeira e a uma greve de anos, a companhia retorna justamente quando o mundo redescobre o valor da capacidade industrial militar. 📸 Wesley Batista, à esquerda, e Joesley Batista, à direita — Divulgação; J&F e Avibras, em Jacareí — Reprodução/TV Vanguarda.
O momento da aquisição também importa. A antiga Avibras entrou em recuperação judicial em 2022, depois de uma crise financeira prolongada e de uma greve que durou cerca de três anos e meio. A reestruturação separou os ativos estratégicos da operação industrial dos passivos submetidos ao processo judicial. Em 2025 surgiu a Nova AVB; em 2026, a Avibras Aeroco retomou as atividades após uma captação privada de R$ 300 milhões, da qual Joesley Batista participou. A produção voltou a operar em maio de 2026.
O que os Batista estão comprando, portanto, não é simplesmente uma fábrica. A Avibras acumulou décadas de conhecimento em foguetes, mísseis, veículos especiais e sistemas de artilharia. O ASTROS é particularmente relevante. Estudos acadêmicos e trabalhos produzidos no âmbito da Marinha relacionam o sistema à Base Industrial de Defesa, à inovação tecnológica e à soberania nacional.
Essa dimensão ajuda a explicar por que a compra ultrapassou a página de economia. A Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara aprovou pedido de informações ao Ministério da Defesa sobre o processo de aquisição. Isso não significa que a operação seja irregular. Significa que existe uma questão institucional: o destino de uma capacidade tecnológica considerada estratégica interessa ao Estado. E essa é a primeira camada da história. Antes de procurar uma conspiração, é preciso entender por que a Avibras é importante.
🛢️ Rockefeller, Petróleo e a Nova Economia Estratégica
A segunda camada começa no passado. No final do século XIX, John D. Rockefeller transformou a Standard Oil em uma potência ao combinar aquisição de concorrentes, integração de etapas produtivas e escala. A empresa tornou-se tão poderosa que o governo americano entrou em choque com sua concentração. Em 1911, a Suprema Corte manteve a dissolução da Standard Oil sob a legislação antitruste. A comparação com os Batista precisa ser cuidadosa: eles não estão construindo um monopólio mundial de armamentos. O paralelo está na lógica de identificar um setor cuja importância ultrapassa o produto vendido.

John D. Rockefeller não descobriu o petróleo. Descobriu algo talvez mais valioso: como transformar um mercado fragmentado em um império. Ao combinar aquisições, refino, integração e escala, Rockefeller levou a Standard Oil a uma posição tão dominante que sua concentração se tornou uma questão nacional nos Estados Unidos. O petróleo havia deixado de ser apenas uma mercadoria. Tornara-se infraestrutura, dinheiro e poder. É justamente essa transformação que ajuda a entender por que, mais de um século depois, a disputa por ativos estratégicos continua despertando tanta atenção. 📸 John D. Rockefeller em 1930 — Getty Images.
Para Rockefeller, o petróleo era infraestrutura da industrialização. Para a economia contemporânea, a analogia possível está na capacidade de produzir tecnologias que Estados consideram essenciais à segurança: mísseis, drones, sensores, satélites, guerra eletrônica e sistemas de defesa. Não significa que armas sejam o novo petróleo. Significa que capacidade industrial pode voltar a ser um ativo estratégico, especialmente quando governos percebem que depender de fornecedores externos pode ser perigoso em uma guerra prolongada.


