In partnership with

Imagem gerada por IA

Em 12 de agosto, duas decisões saíram de Washington quase simultaneamente. Uma apontava para a terra. A outra, para o ciberespaço. No Panamá, Pete Hegseth dizia que a ofensiva americana contra cartéis poderia deixar o mar e alcançar o território, tratando organizações designadas como terroristas como alvos legítimos.

Na mesma data, Donald Trump assinava um memorando autorizando empresas privadas americanas, sob controle federal, a realizar operações de vigilância e efeitos cibernéticos contra organizações criminosas transnacionais estrangeiras. Enquanto isso, Buenos Aires se preparava para receber a conferência internacional da DEA, com delegações de dezenas de países discutindo narcotráfico, inteligência, lavagem de dinheiro e narcoterrorismo. Separadamente, cada acontecimento possui uma explicação. Juntos, parecem peças de uma mesma transformação: a guerra contra o crime organizado começa a envolver militares, diplomatas, agências de inteligência, sanções financeiras e empresas de tecnologia.

Não há prova de uma conspiração central. Mas talvez a pergunta mais inquietante seja justamente outra: quando polícia, guerra e tecnologia começam a operar no mesmo tabuleiro, quem está realmente redesenhando as fronteiras do combate ao crime?

⚔️ Do Mar à Terra: Quando o Cartel Passa a ser Tratado Como Inimigo Militar

A declaração de Pete Hegseth no Panamá, em 12 de agosto, representa uma mudança importante na linguagem empregada por Washington. Segundo a BBC, o secretário de Defesa afirmou que os Estados Unidos trabalham com Colômbia, Equador e outros parceiros para levar a luta contra organizações de tráfico de drogas para a terra. A comparação foi direta: assim como ocorreu com as ofensivas contra embarcações suspeitas, organizações criminosas poderiam ser perseguidas em território terrestre. Hegseth afirmou ainda que organizações designadas como terroristas seriam “alvos legítimos” dos Estados Unidos, em conjunto com governos parceiros.

Uma declaração do secretário de Defesa dos EUA pode ter aberto uma nova frente na guerra contra o narcotráfico na América Latina. Ao afirmar que Washington trabalha com Colômbia, Equador e outros parceiros para levar a ofensiva para a terra, Pete Hegseth comparou os cartéis a organizações como Estado Islâmico e Al-Qaeda. A mudança de linguagem chama atenção: quando o combate às drogas passa do mar para o território, onde termina a operação policial e começa uma nova lógica de segurança? 📸 EPA

A declaração ganha peso quando colocada ao lado da campanha iniciada pelos Estados Unidos contra embarcações que Washington afirma estarem relacionadas ao narcotráfico. Desde setembro de 2025, ataques americanos contra barcos deixaram mais de 150 mortos, segundo o material da BBC fornecido para esta investigação. Hegseth agora fala em aplicar em terra competências desenvolvidas durante décadas de operações americanas contra redes consideradas ameaças à segurança nacional. O vocabulário também mudou: cartéis são aproximados de organizações como Estado Islâmico e Al-Qaeda, enquanto FARC e ELN aparecem dentro da possibilidade de ações conjuntas com a Colômbia.

A Colômbia tornou-se particularmente importante nesse desenho. Durante a reunião no Panamá, o país passou a integrar a Americas Counter Cartel Coalition, ou ACCC, como 19º membro. A iniciativa, conhecida também como Escudo das Américas, pretende coordenar países do hemisfério contra cartéis e outras ameaças transnacionais. A própria estrutura da coalizão, porém, vai além do narcotráfico: Washington também apresenta como objetivo limitar interferências estrangeiras consideradas adversas. É aqui que a China entra na equação.

Surge então a primeira teoria conspiratória: a classificação de organizações criminosas como terroristas poderia funcionar como mecanismo para ampliar a margem de atuação militar americana no continente. Não há evidência pública de que essa seja uma operação secreta planejada para justificar uma intervenção regional. Mas existe uma transformação concreta: o problema policial está sendo enquadrado cada vez mais como ameaça de segurança nacional. E quando o inimigo deixa de ser apenas um traficante e passa a ser descrito como terrorista, as ferramentas disponíveis para combatê-lo mudam completamente.

🛡️ Escudo das Américas: A Volta da Doutrina Monroe?

O segundo movimento acontece longe das trincheiras. No Panamá, Hegseth voltou a invocar a Doutrina Monroe, formulada em 1823 e posteriormente reinterpretada por diferentes presidentes americanos. Seu corolário mais famoso surgiu com Theodore Roosevelt, em 1904, quando Washington reivindicou o direito de intervir em países latino-americanos considerados incapazes de cumprir determinadas obrigações internacionais. Mais de um século depois, a administração Trump passou a falar abertamente em uma nova interpretação hemisférica. A própria expressão “Corolário Trump à Doutrina Monroe” entrou no vocabulário político de Washington.

Uma linha traçada em 1823 define quem manda e quem obedece nas Américas. Quando Washington usou a Doutrina Monroe para intervir onde quisesse, o Canal do Panamá virou apenas a primeira peça de um tabuleiro implacável. Hoje, sob a justificativa de conter ameaças, os EUA movem suas torres, lembrando que a autonomia dos vizinhos é um luxo negociável. 📸 Getty Images

A lógica apresentada pelo governo americano é direta: organizações terroristas estrangeiras não deveriam controlar partes do Hemisfério Ocidental e potências externas não deveriam assumir controle de áreas estratégicas. O Canal do Panamá tornou-se o exemplo mais evidente. Construído pelos Estados Unidos no início do século XX e devolvido ao Panamá em 1999, o canal voltou ao centro da disputa geopolítica porque Washington teme a influência chinesa sobre infraestrutura e operações relacionadas à passagem marítima entre Pacífico e Atlântico. O presidente panamenho José Raúl Mulino, por sua vez, reafirma a soberania de seu país enquanto mantém diálogo com Washington.

Entre no Conspira Café — Onde a Curiosidade é Bem-Vinda

Sabe aquela sensação de que nem tudo que nos dizem é a verdade completa? Eu sinto isso há anos. Por isso, criei o Conspira Café — um refúgio onde posso dividir com você minhas dúvidas, descobertas e pensamentos mais inquietos. Aqui, escrevo sobre conspirações, segredos escondidos nas entrelinhas e teorias que muita gente evita discutir. Nada de rótulos ou certezas absolutas. Apenas a vontade de entender o que pode estar por trás da cortina.

Already a subscriber?Sign in.Not now

Reply

Avatar

or to participate

Continue lendo

View more
caret-right