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Brasília dormia sob a luz branca dos prédios públicos quando um documento começou a circular entre aqueles que conheciam seu conteúdo. Não era sentença, denúncia formal ou peça destinada aos arquivos solenes de uma instituição. Era um relatório de inteligência. Tinha informações, interpretações, nomes e conexões. Naquele momento, porém, possuía algo mais poderoso: estava sendo usado para construir uma narrativa sobre pessoas que ocupavam o topo da República.

Do outro lado da disputa, outro ministro questionava a origem daquele documento e descrevia como “orwelliano” o cenário produzido pela coleta de informações.

O nome de George Orwell reaparecia onde talvez ninguém esperasse encontrá-lo: no interior do Supremo Tribunal Federal.

Em 1984, Winston Smith descobria que o poder não precisava destruir a verdade. Bastava controlar os registros pelos quais ela poderia ser reconstruída.

Setenta e seis anos depois da publicação do romance, a pergunta permanecia desconfortavelmente atual:

quem controla a informação quando aqueles que deveriam fiscalizar o poder também passam a disputar o controle sobre ela?

🕵️ O Mundo de 1984 Não Era Apenas um Mundo de Vigilância

Quando André Mendonça citou 1984 na decisão que determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, a referência deixou de ser apenas literária. O ministro relacionou o episódio à produção de relatórios de inteligência sobre autoridades e determinou a suspensão da elaboração e do compartilhamento de determinados documentos ligados à atividade jurisdicional. A decisão ocorreu depois que Alexandre de Moraes utilizou um relatório da PF para questionar a atuação de Mendonça em investigações envolvendo o Banco Master. O conflito passou, assim, a envolver a própria origem da informação usada para sustentar acusações dentro da mais alta Corte do país.

A citação de '1984' por André Mendonça acendeu o estopim de uma das maiores crises recentes envolvendo a cúpula da segurança e a Suprema Corte. O embate ganhou contornos dramáticos no dia seguinte, quando Flávio Dino barrou o afastamento de Andrei Rodrigues, sendo ambos desautorizados logo depois por Edson Fachin, que centralizou o caso para estancar o conflito horizontal de decisões. O episódio ilustra como o uso político e técnico de relatórios de dados colocou os Poderes em uma engrenagem de desconfiança mútua que agora exige uma resposta colegiada urgente. 📸 O que diz 1984, livro citado por Mendonça ao afastar diretor da PF — Metrópoles

É justamente por isso que 1984 merece ser levado a sério. Orwell não imaginou simplesmente um Estado com câmeras em todas as esquinas. Seu pesadelo era mais sofisticado: uma estrutura capaz de interferir na linguagem, nos documentos, na memória e na percepção da realidade. Winston trabalha no Ministério da Verdade porque o poder compreende algo essencial: controlar o presente é insuficiente quando os registros do passado podem contradizê-lo. Documentos são alterados, palavras redefinidas e memórias subordinadas à narrativa dominante. O duplipensar completa o mecanismo ao permitir que afirmações contraditórias coexistam quando a autoridade determina que ambas são verdadeiras.

A analogia com o caso brasileiro, entretanto, precisa respeitar os fatos. A Folha observou que os documentos apresentados na decisão de Mendonça não comprovam, por si mesmos, interceptações telefônicas, rastreamento de localização ou vigilância física. São relatórios de inteligência com informações sobre reuniões, investigações e interpretações acerca da atuação de autoridades. Um deles foi descrito como “análise de cenário”, com “confiança agregada baixa” e “sem valor probatório”. Mendonça, contudo, considerou a coleta dirigida de informações uma forma ilegal de monitoramento. A diferença entre essas interpretações é justamente onde a controvérsia começa.

Em 1984, o poder dependia de uma burocracia capaz de produzir a versão oficial da realidade. No episódio brasileiro, não há evidência de que o país tenha se transformado na Oceania de Orwell. Existe, porém, uma disputa concreta sobre quem produz inteligência, quais métodos podem ser utilizados, quem recebe os relatórios e quando um documento interno passa a participar de uma acusação judicial. E os acontecimentos de 9 de setembro acrescentaram outra camada: Fachin suspendeu decisões de Mendonça e Flávio Dino sobre a chefia da PF e retirou Moraes da relatoria do Inquérito das Fake News, citando o risco de decisões contraditórias. A batalha deixou de ser apenas pelo poder de observar. Tornou-se também uma disputa sobre quem pode definir o significado e o destino da informação.

🐷 Orwell Também Escreveu Sobre Quem Muda as Regras

Se 1984 oferece uma chave para compreender a disputa em torno da informação, A Revolução dos Bichos fornece outra lente para observar a concentração de poder. Publicada em 1945, a fábula nasceu da crítica de Orwell ao stalinismo e à transformação de ideais revolucionários em estruturas de dominação. Os porcos assumem o comando, monopolizam a interpretação dos acontecimentos e modificam progressivamente as regras que deveriam impedir privilégios. “Todos os animais são iguais” permanece como princípio, mas sua aplicação se transforma até que alguns sejam, ironicamente, “mais iguais” que os demais. A alegoria mostra que o poder não precisa abandonar seus princípios publicamente; pode alterar seu significado.

O contraste entre a seriedade das denúncias e o ambiente descontraído nos corredores do Supremo revela a blindagem emocional que envolve a cúpula do Judiciário brasileiro. Mesmo diante do surgimento de acusações que lançam sombras sobre a conduta de Alexandre de Moraes, os ministros mantêm uma postura de normalidade que desafia a pressão externa. A imagem de cumplicidade entre os julgadores serve como um poderoso símbolo de união interna, sinalizando que a governabilidade do tribunal segue intocável, independentemente do barulho que venha de fora das suas paredes. 📸 Brenno Carvalho/O Globo - 2.set.2026

Existe ainda uma ironia histórica. Décadas depois da publicação, a CIA participou secretamente da produção da versão cinematográfica de 1954. A operação fazia parte da guerra cultural contra a União Soviética e procurou transformar a obra em instrumento de propaganda anticomunista. O filme modificou aspectos importantes da narrativa original, e o envolvimento da agência permaneceu oculto durante anos. Isso não demonstra que Orwell fosse agente da CIA; não há evidência histórica robusta para essa tese. O fato documentado é outro: uma agência de inteligência apropriou-se de uma obra sobre manipulação política para produzir uma mensagem política própria.

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Sabe aquela sensação de que nem tudo que nos dizem é a verdade completa? Eu sinto isso há anos. Por isso, criei o Conspira Café — um refúgio onde posso dividir com você minhas dúvidas, descobertas e pensamentos mais inquietos. Aqui, escrevo sobre conspirações, segredos escondidos nas entrelinhas e teorias que muita gente evita discutir. Nada de rótulos ou certezas absolutas. Apenas a vontade de entender o que pode estar por trás da cortina.

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